Após invadir territórios e aumentar seus domínios, nova cúpula do jogo controla escolas e busca se estabelecer também no carnaval Episódio escancara como a disputa de poder pelas ruas da cidade reverbera na Sapucaí


 Já passava das 5h da madrugada quando o presidente do Salgueiro, André Vaz, subiu ao palco. Era 11 de outubro do ano passado, e a quadra, no Andaraí, estava lotada para o anúncio do samba da escola para o carnaval deste ano. Antes de revelar o vencedor, porém, Vaz fez um anúncio dirigido às três parcerias finalistas: “Nosso patrono preparou uma surpresa: o samba campeão vai levar um prêmio de R$ 100 mil. E os outros dois levam R$ 50 mil cada um”, disse, sem se esquecer de mencionar o atual mecenas da escola, Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, um dos integrantes da nova cúpula do jogo ilegal do Rio. Diante de uma plateia de compositores boquiabertos — afinal, pagamentos polpudos em disputas de sambas-enredos não são comuns —, Vaz acrescentou: “Quem quiser retirar o valor ainda hoje, é só passar na recepção”.


O episódio escancara como a disputa de poder pelas ruas da cidade reverbera na Sapucaí: no quarto capítulo da série sobre o novo mapa do jogo ilegal no Rio, mostramos como os integrantes da nova cúpula, após invadirem territórios e se consolidarem no topo da hierarquia da contravenção fluminense, buscam se estabelecer também no carnaval.


Adilsinho foi anunciado como patrono do Salgueiro num ensaio em março passado. Meses antes, ele havia invadido — com apoio de Rogério Andrade e Vinicius Drumond, seus parceiros na nova cúpula — a região que, até os anos 2000, era comandada por Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, que também dava as cartas na agremiação. Por isso, a chegada de Adilsinho à escola soava como um gesto de afirmação perante os demais bicheiros: primeiro, ele tomou o controle do jogo na área da família Garcia; depois, a escola que era apadrinhada pelo clã.


Desde então, o novo patrono faz investimentos no Salgueiro que, segundo funcionários, não eram vistos desde os tempos dos Garcia. Em retribuição, a diretoria da escola exige menções laudatórias constantes a Adilsinho em eventos na quadra, em ensaios técnicos, postagens nas redes sociais oficiais e até em entrevistas dos componentes — de passistas a baianas.


— A escola está esbanjando. Neste ano, quando o carnavalesco pede um material caro, ninguém questiona se poderia substituir por um mais barato, com o mesmo efeito, o que era normal no Salgueiro até o ano passado — conta um integrante.


Adilsinho parece ter ambições maiores no mundo do samba. No final do ano passado, o Conselho Deliberativo do Salgueiro o tornou sócio benemérito, o que abre as portas para que ele possa se candidatar e ser eleito presidente da agremiação, assim como foram Maninho e seu pai, Miro Garcia. Sua presença no desfile da próxima segunda-feira — em que a escola vai apresentar o enredo “Salgueiro de corpo fechado” —, no entanto, é improvável: em novembro passado, a Justiça decretou a prisão dele pelos homicídios de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri, e de seu segurança, Alexsandro José da Silva. Desde então, ele está foragido — e nunca mais deu as caras na quadra ou em ensaios.


Já na Mocidade Independente de Padre Miguel, a expectativa até meados do ano passado era pelo retorno de Rogério Andrade, sobrinho do capo Castor de Andrade, à Sapucaí. Desde 2018 afastado dos desfiles da escola por pendências com a Justiça, Rogério esperava poder voltar a participar do desfile este ano, principalmente quando, em abril do ano passado, o bicheiro foi autorizado pelo ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), a retirar a tornozeleira eletrônica e a sair de casa depois das 18h.


Depois da decisão, Rogério voltou a frequentar a quadra e até anunciou, como carnavalesco da Mocidade, Renato Lage — que havia feito história justamente no período de Castor à frente da escola. Entre 1990 e 1996, Lage foi tricampeão pela verde e branco com enredos futuristas, na mesma linha que o preparado para este ano: “Voltando para o Futuro – Não Há Limites para Sonhar”.


Fabíola Andrade, esposa do bicheiro e rainha de bateria desde o ano passado, também foi mantida no posto. A expectativa para o carnaval era tanta que Rogério, inclusive, tentou comprar o espaço de um camarote num setor privilegiado da Sapucaí. O maior envolvimento do bicheiro no pré-carnaval foi encarado, nos bastidores da escola, com animação: depois de dois anos frequentando as últimas colocações do Grupo Especial — período no qual Rogério chegou a parar de investir na agremiação por ter tido as contas bloqueadas —, a sua volta era uma chance de brigar pelo título.


Em outubro do ano passado, no entanto, Rogério foi surpreendido por uma decisão judicial inesperada. Mais de dois anos depois de o STF ter decidido trancar a ação penal contra ele pelo assassinato de seu maior rival pelo espólio de Castor, Fernando de Miranda Iggnácio — executado num heliponto no Recreio, em 2020 —, o Grupo de Atuação Especializada no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio juntou mais provas e ofereceu uma nova denúncia contra o bicheiro. A 1ª Vara Criminal da Capital decretou sua prisão, e Rogério foi capturado. Atualmente, ele aguarda o julgamento do caso no Presídio Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.


A Mocidade sofreu outra baixa nos meses que antecederam o carnaval. Também em outubro, o presidente da escola, Flávio da Silva Santos — apontado como braço direito de Rogério e investigado por gerenciar pontos de jogo ilegal do chefe em Bangu, Realengo e Padre Miguel — foi preso em flagrante quando policiais cumpriam um mandado de busca e apreensão em sua casa. Na ocasião, ele jogou uma arma de uso restrito pela janela de seu prédio. Beneficiado por uma decisão judicial, foi solto, mas passou meses afastado das atividades da escola até comparecer ao teste de luz e som, no fim de semana passado, e anunciar a renovação do contrato de Renato Lage para o ano que vem.


Já Vinicius Drumond, filho do contraventor Luizinho Drumond e terceiro integrante da nova cúpula, tem um perfil mais discreto que o de seus colegas. Ele ocupa o cargo de vice-presidente executivo da Imperatriz Leopoldinense, mas não é quem manda na escola. No teste de luz e som, integrantes empunhavam bandeirões com os rostos de sua irmã, Catia, presidente, e de seu sobrinho, João Felipe, vice-presidente — não havia menção a Vinicius. Desde a ascensão da nova cúpula, porém, é ele quem controla o espólio do pai, morto em 2020 vítima de um AVC, na jogatina.


Uma investigação da Delegacia de Homicídios da Capital aponta Vinicius como mandante do homicídio de Manuel Agostinho Rodrigues Miranda, em Del Castilho, na Zona Norte, em setembro passado. A vítima trabalhou para Luizinho Drumond, gerenciando bingos, porém, por não gostar da gestão do sucessor de seu antigo patrão, teria justificado sua saída dos negócios dizendo que precisava se aposentar. No entanto, ele teria ido trabalhar com Adilsinho — o que, segundo o inquérito, enfureceu o herdeiro. No último dia 5, Vinicius também foi alvo de uma operação sob a acusação de chefiar uma quadrilha que furtava combustíveis de dutos subterrâneos da Petrobras.


A nova cúpula já ensaiou fazer oposição à Liga Independente das Escolas de Samba do Estado do Rio de Janeiro (Liesa), que administra o carnaval carioca. Em janeiro do ano passado, por exemplo, Rogério foi à sede da Liga, no centro do Rio, para exigir a remarcação de um ensaio de sua escola, devido a um problema técnico no carro de som oficial, que acabou atrasando a entrada da Mocidade. Como consequência, por ser num domingo, boa parte dos componentes da agremiação não ensaiou, porque perderia a condução no retorno para casa. Numa reunião plenária, a Liga cedeu e liberou uma nova data para a escola ensaiar.


Apesar de existir uma velada disputa por poder, é fato que a velha cúpula não deixará de ser lembrada na Sapucaí. No camarote da Liesa, uma pintura tem as imagens e os nomes de 14 figuras marcantes nos 40 anos da Liesa, entre elas oito bicheiros.


O que dizem os citados nas investigações

As defesas de Rogério Andrade e de Adilsinho foram procuradas para comentar as participação de ambos na nova cúpula, mas não quiseram se manifestar. O advogado de Vinicius Drumond não foi localizado


O advogado do ex-PM Rafael do Nascimento Dutra, o Sem Alma, não respondeu às tentativas de contato.


Também foram questionadas a Polícia Militar do Rio, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e o Exército sobre o uso de munição dessas instituições em crimes da guerra do jogo do bicho. A PRF e a PM informaram que suas corregedorias abriram procedimentos internos para apurar os fatos. Já o Exército alegou que não teve tempo hábil para encontrar as informações solicitadas pela reportagem.

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