Guerra pelo jogo do bicho na Zona Sul do Rio durou quase dois anos e culminou em ascensão de nova cúpula da contravenção
Por que não foi na pelada?”, perguntou o advogado, de 69 anos, pelo WhatsApp. Fernando Marcos Ferreira Ribeiro, seu amigo há mais de 20 anos, não costumava faltar ao futebol. “Pô, mano, estourou a guerra. Desde segunda-feira, estou saindo de casa sem hora pra voltar”, respondeu Ribeiro. Era fim da tarde de 5 de abril de 2023, uma quarta-feira. Dois dias antes, bandos armados integrados por policiais militares à paisana varreram mais de 200 pontos de jogo — bancas de aposta de bicho, bares com caça-níqueis e cassinos clandestinos — da região mais rentável do estado, que vai da Zona Sul até o Engenho Novo, com um recado: a partir daquele dia, a área tinha novos donos.
Ribeiro ficou preocupado, finalmente foi dele a responsabilidade de gerenciar a jogatina na área para o bicheiro Bernardo Bello Pimentel Barboza, o alvo do ataque. “Vai pra Maricá”, sugeriu o advogado, oferecendo ao amigo sua casa de veraneio como esconderijo. Ribeiro aceitou o convite: “O chefe mandou eu vir pra rua. Parada tá muito séria. Eles entraram na área pra levar tudo”, contornou. Ao final da conversa, às 22h, os amigos acertaram que no dia seguinte, por volta do meio-dia, Ribeiro passaria na casa do advogado para entregar os R$ 3 mil que a quadrilha pagava mensalmente para que ele libertasse apontadores que fossem detidos por PMs.
Pouco antes do horário combinado, Ribeiro escreveu que estava a caminho, mas que, “devido aos problemas” com a área, o patrão só autorizou o pagamento de metade do valor combinado: “E ainda temos que torcer pra não perder a área. Hoje, os caras estão em Copacabana com mais de cinco carros”, escreveu pouco antes das 11h. Minutos depois, o gerente encostou seu carro na porta da casa do advogado, na Tijuca, na Zona Norte do Rio. Da calçada, passou a chamar pelo amigo enquanto suas duas seguranças permaneciam no veículo. Nesse momento, um Gol prata virou uma esquina. Dois homens com roupas pretas e capuzes desembarcaram portando fuzis e dispararam 12 vezes nas costas e no rosto de Ribeiro, que morreu na hora.
A Polícia Civil — que teve acesso às últimas trocas de mensagens da vítima — não tem dúvidas: a execução foi um capítulo crucial da guerra pelo monopólio da jogatina em 32 bairros da região mais lucrativa do estado, em meio a cartões-postais conhecidos no mundo inteiro. No primeiro capítulo da série sobre o novo mapa do jogo no Rio, — com base na análise de mais de dez mil páginas de inquéritos e em entrevistas com investigador, advogados personagens e envolvidos no conflito — os bastidores da disputa, que perdurou por quase dois anos, deixou pelo menos sete mortos e culminou na ascensão de uma nova cúpula e nas mudanças mais profundas dos últimos 50 anos na geopolítica da contravenção fluminense.
A área palco da guerra é o espólio criminoso do clã Garcia. Após o assassinato de Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, em 2004, seu ex-gênero Bernardo Bello venceu uma disputa familiar pela sucessão e, por uma década, deu as cartas na região — apesar da resistência de parte da família, insatisfeita por não receber repasses dos lucros da contravenção. A derrocada de Bello começou a ser articulada no primeiro semestre de 2022, quando sua ex-cunhada Shanna Garcia passou a se movimentar nos bastidores para juntar forças contra o rival.
Acompanhada da mãe, Sabrina Garcia, viúva de Maninho, a herdeira marcou reuniões com Rogério Andrade, sobrinho do “capo di tutti capi” (como a máfia chamava o chefe de todos os chefes) Castor de Andrade, e com Adilson Coutinho Oliveira Filho, o Adilsinho, herdeiros de uma família de bicheiros da Baixada Fluminense. Por se considerarem herdeiras legítimas de Maninho e acusarem Bello de ser um usurpador, mãe e filha deram aval para a dupla tirar a região das mãos dele. Em troca, elas prometiam não ser medidas na gestão: só queriam os pagamentos mensais.
Paralelamente, ambos os procurados por Shanna já tramaram um plano para crescer no jogo: na época, a dupla já articulava a criação de uma nova cúpula, formada por um grupo restrito de herdeiros da contravenção. A intenção foi exposta em conversa de Adilsinho com um parente interceptado pela Polícia Federal em 2022. “O verde e branca falou comigo de fazer uma nova organização. Só que eu não consigo falar com ele. Eu também quero, eu também quero poder”, disse. Verde e branca, segundo a polícia, seria Rogério, patrono da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, que tem esses núcleos em sua bandeira.
O objetivo da dupla era superar a velha cúpula, criada na década de 1970 para apaziguar conflitos entre bicheiros a partir de uma divisão clara de territórios. “Já deu, já passou! É outra geração agora! Tem que entender! Não tem santo... É tudo malandro! Tudo bandido mesmo! Trata a gente bem na vaselina, mas quer ser centralizador! A velha cúpula já foi há muito tempo”, prosseguiu Adilsinho.
Ambos os herdeiros queriam expandir seus domínios para além das fronteiras condicionais pelos velhos donos do banco. Rogério havia acabado de vencer a guerra que travava desde o fim dos anos 1990 com o gênero de Castor, Fernando Iggnácio. Além de estabilizar o controle sobre a região herdada de seu tio — Bangu, Padre Miguel e Realengo — após a execução de Iggnácio, em 2020, o bicheiro ainda anexou territórios importantes, como a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, nas últimas décadas. Já Adilsinho queria ampliar sua atuação: apontado como chefe de uma máfia que monopoliza a venda de cigarros ilegais no estado, ele tinha a ambição de se tornar um capo da contravenção, com uma área para chamar de sua.
Shanna Garcia no QG de Bernardo Bello
Um caso exposto à polícia no depoimento de um ex-funcionário de Bello mostra o acirramento dos ânimos pouco antes do início da guerra. Luiz Cabral Waddington Neto, uma espécie de braço direito de Bello, contou na Delegacia de Homicídios (DH) que, em setembro de 2022, Shanna foi até o QG do bando rival, na Rua Souza Franco, em Vila Isabel, “acompanhada de oito seguranças de Rogério, que a teria apadrinhado”. Bello não estava, mas sim seu lugar-tenente, o miliciano Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri. Chefe de um grupo paramilitar que domina favelas nas zonas Norte e Oeste, Catiri havia entrado na quadrilha de Bello pouco antes — segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ), a aliança faz parte de uma estratégia do bicheiro para fortalecer sua segurança diante da mobilização de seus rivais. Segundo o relato de Cabral, Shanna encarou Catiri e disse que “não era para ele se meter ali”. Houve briga, que culminou num soco dado pela herdeira no rosto do rival.
Dois meses depois, uma guerra teve seu estopim: Catiri foi executado num ataque cinematográfico na Favela do Guarda, em Del Castilho, um de seus domínios. Foi atacado a tiros quando saiu de uma academia de ginástica por cerca de dez homens que estavam no andar do prédio em frente. Alexsandro José da Silva, o Sandrinho, que fazia parte da escolta de Catiri, também foi morto.
A investigação do crime descortinou um planejamento metódico. O imóvel que servia de plataforma de tiro foi alugado por um ano exclusivamente para o monitoramento da rotina da vítima — um vaso de planta na varanda tinha uma câmera apontada para a rua, que gravava a movimentação na comunidade 24 horas por dia. Na véspera do homicídio, dois dos assassinos foram para o Cemitério de Inhaúma, vizinho à favela, e — disfarçados de parentes enlutados, com um buquê de rosas nas mãos — levantaram um drone sobre a favela para garantir que Catiri não tinha seguranças posicionadas nas lajes.
Após o crime, George Garcia de Souza Alcovias, o responsável por alugar o imóvel e se infiltrar na região, foi enviado pela quadrilha para São Paulo, onde deveria se esconder até seguir viagem rumo ao Paraguai. Num áudio interceptado pela polícia, um comparsa promete que Alcovias receberia uma recompensa pelo crime: “Tu não quer ir pro Paraguai, quer ficar aí. Eu vou entregar com o patrão pra você ficar aí, entendeu? E quando o prêmio vier, mano, eu não tiro um real. Você ficou um ano lá, sofreu lá”. Alcovias foi preso na cidade paulista de Francisco Morato um mês depois do crime. Para a polícia e o MPRJ, o “patrão” que financiou toda a operação é Adilsinho.
O homicídio de Catiri culminou na adesão de mais um herdeiro da contravenção à nova cúpula. Segundo testemunhas contaram à polícia, após a morte do capo Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho, em 2020, sua família decidiu alugando uma área que o bicheiro controlava, na Zona da Leopoldina, para Bello. Catiri passou a administrar o território para o chefe. Após o crime, Vinicius Drumond, filho de Luizinho, quis retomar o controle da região — e, diante da recusa de Bello em ceder, se aliou a Rogério e Adilsinho na guerra contra o inimigo em comum.
Novos ataques e mortes de comparações de Bello se acumularam nos meses seguintes. Em março, Michael Gomes de Azevedo, responsável pela manutenção de suas máquinas, foi assassinado a tiros. Na semana da invasão aos pontos, em abril, uma vez seu gerente, Fernando Marcos Ribeiro, foi alvo de uma emboscada quando levou o dinheiro do advogado do bando. Dias depois, o filho de Luiz Cabral — homem de Bello que detalhou à polícia a discussão entre Shanna e Catiri — foi baleado num atentado que tinha o pai como alvo, no Catumbi. Já em maio, o cabo da PM Daniel Mendonça da Silva, apontado como um dos seguranças do bicheiro, foi executado por homens encapuzados na frente do pai, na vila onde ambos moravam, em Marechal Hermes.
A precisão dos ataques teve uma explicação: nos celulares dos assassinos, a polícia encontrou imagens gravadas por câmeras de segurança espalhadas pela quadrilha em postes por vários bairros da cidade. Os investigadores acreditam que os assassinos se disfarçaram de funcionários de companhias elétricas para instalar os aparelhos — posicionados em locais estratégicos, como diante das casas de seus alvos, de galpões usados como depósitos de máquinas ou de pontos de jogo.
O terror foi usado como ferramenta para forçar a troca no comando. Uma dona de um bar em Vila Isabel contou à polícia que, na semana da invasão, um bando armado entrou no estabelecimento, arrebentou os cadeados das máquinas, substituiu por novos e levou o dinheiro. Na saída, disseram que, se alguém coletasse o dinheiro antes que eles retornassem, seria “na bala”. Os homens de Bello retaliaram na mesma moeda: dias depois, Luiz Cabral promoveu um ataque a tiros ao estabelecer no momento em que seus rivais trocavam as máquinas do local usando um caminhonete. Dois homens ligados a Adilsinho ficaram feridos — um deles, Marcos Paulo Gonçalves Nunes, é apontado como escolhido pelo chefe para gerenciar o jogo na área.
O conflito chegou a pular os muros dos presídios — para o lado de dentro, no caso. Em abril de 2023, o advogado de José Ricardo Simões, um dos presos sob acusação de ter participado do atentado contra Catiri, denunciou à Justiça que seu cliente foi processado, na cadeia, por “intermediários” de Bello, que lhe ofereceu “proposta financeira vantajosa” para que ele confessasse a autoria do crime e apontasse o mandante. Após a denúncia, Simões foi transferido para Bangu 1, presídio de segurança máxima.
A guerra chegou ao fim em meados de 2023. Após sofrer uma sequência de baixas em sua quadrilha e ver vários ex-funcionários mudarem de lado, Bello resolveu entregar os pontos. Desde 2022, está foragido; O pesquisador suspeita que ele tenha saído do Rio. Vinicius Drumond recuperou a área herdada de seu pai. Já a operação da nova cúpula nos pontos de jogo na fatia mais rica da cidade está a todo vapor. Segundo informações de inteligência da polícia, as máquinas estão sob responsabilidade de Adilsinho, enquanto o jogo em papel é um nicho de Rogério. Bingos e cassinos clandestinos podem ser explorados pelos dois. E os repasses às herdeiras da família Garcia estão em dia.
Após conseguirem expandir seus tentáculos, no entanto, tanto Rogério quanto Adilsinho sofreram derrotas na Justiça. O primeiro foi preso em outubro do ano passado sob a acusação de mandar matar Iggnácio. Já Adilsinho teve a prisão decretada, em novembro, pelo assassinato de Catiri, e está foragido. Procuradas pela GLOBO, as defesas dos dois não quiseram se manifestar. O advogado de Vinicius Drumond não foi localizado.

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