Necropsia de Adriano da Nóbrega contradiz depoimento de PMs e indica que uma das balas o atingiu deitado

 

MP baiano pediu mais informações sobre a morte do miliciano, em fevereiro do ano passado. Dois tiros o acertaram. Policiais que o encontraram afirmaram em depoimento que revidaram da porta assim que Adriano atirou, de pé.



Laudos de duas necropsias no corpo do miliciano Adriano da Nóbrega, que foi morto em uma ação policial em fevereiro de 2020, contradizem a versão dos PMs que o encontraram. Uma das análises indica que uma bala o atingiu deitado, e não em confronto.

Tivemos  acesso a essas perícias, que geraram um pedido do Ministério Público da Bahia sobre mais informações.

Uma força-tarefa com 70 homens foi mobilizada no cerco ao capitão, mas somente três PMs conseguiram localizá-lo, no dia 9 de fevereiro de 2020.

    Simulação mostra, segundo   depoimento, como os três PMs baianos   atiraram contra Adriano da Nóbrega

Segundo o depoimento desses três policiais, eles deram voz de prisão contra o ex-capitão da varanda. Como Adriano não respondeu, forçaram a porta.

Assim que a arrombaram, Adriano disparou sete vezes, mas não acertou ninguém. Na mesma hora, dois dos três PMs revidaram, com um tiro cada um — os dois atingiram o miliciano.

A necropsia feita no Rio de Janeiro trouxe detalhes desses tiros que mataram Adriano. Um projétil, segundo o laudo, parece ter vindo rente ao chão.

Uma das balas entrou pela cintura, do lado esquerdo, saiu pela clavícula e entrou novamente no corpo de Adriano, alojando-se no pescoço.

“É um tiro absolutamente em que a vítima provavelmente já estava deitada. Isso precisa ser esclarecido. Esse tiro deveria entrar e sair numa posição paralela ao solo”, diz o perito Nelson Massini.

Laudo da necropsia de Adriano da Nóbrega aponta trajeto de bala que indica que ele estava deitado

Outro dado do laudo é a falta de vestígios de pólvora nas mãos do miliciano — apesar de, segundo os PMs, Adriano ter atirado sete vezes.

“Isso fala a favor de que ele não atirou, a princípio, mas é preciso justificar o porquê dessa negatividade”, diz Massini.

Um terceiro destaque são lesões na região da cabeça de Adriano. Massini destaca que os ferimentos foram feitos enquanto o miliciano ainda estava vivo — mas não foram explicados pelos policiais.

“Em que momento isso foi feito? Se você teve a oportunidade de se aproximar dele e dar essas pancadas na cabeça, por que não prendê-lo?”, pontuou o perito.


Lucro de R$ 2 milhões

Segundo o Ministério Público do Rio, a quadrilha do miliciano se organizava, quanto faturava e como continuava tocando seus negócios criminosos mesmo depois da morte do ex-capitão do Bope.

A investigação gerou uma operação para prender nove integrantes do bando. O principal alvo era a viúva dele, Júlia Lotufo, chefe da organização que geria o patrimônio e espólio de Adriano. 

Júlia fazia a contabilidade da quadrilha do marido, que chegou a ter lucro de quase R$ 2 milhões por mês. Mas com a morte de Adriano, a fonte foi secando.




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